Crônicas

Rio abaixo…

Reconectar, rever, retomar a amizade – foi o mantra de Clô ao receber o convite para a festa dos 40 anos de formatura. Quarenta! Ela leu a lista de colegas com um sorriso nostálgico no rosto e um pensamento ligeiramente suspeito:

“Que tempos maravilhosos… mais ríamos do que estudávamos, e ainda assim conseguimos o diploma! Milagre puro. Laís, Marina e eu éramos uma trinca imbatível!” Sabiam tudo da vida uma da outra – inclusive os detalhes mais cabeludos.

Só que a vida, essa bagunceira, foi jogando cada uma para um lado. “Como estarão agora? Bonitinhas, como éramos? Ou detonadas pelo tempo, como todo mundo?”

Aí veio o pânico, aquele clássico pânico feminino com data marcada.

Dois meses até o evento. Tempo suficiente para virar uma versão 2025 de si mesma – sem filtro, sem Photoshop, ao vivo e em HD.

Missão Clotilde em modo turbo:
- Reforçou a academia (alô, personal trainer);
- Clareamento nos dentes (tchau, café e vinho);
- Mechas loiras (tom “iluminada e despreocupada”);
- Botox e uma esticadinha nas pálpebras (cirurgia rápida, que ninguém precisa saber);
x Harmonização facial? Quase. Mas faltou coragem. Ainda bem.

Chegou ao evento com a autoestima no volume máximo. O espaço era charmoso, mesas e sofás espalhados, vibe “sunset de senhora elegante”.

E lá estavam elas: Marina e Laís. Reconhecíveis, porém… um pouco vencidas pelo prazo de validade.

“Gastei horrores pra nada. Estão caidinhas. Ufa!”

Mas Clô era educada. E disfarçava bem.

Abraços, beijinhos, aquela conversa-padrão de reencontro:
“Casou?”
“Tem filhos?”
“Trabalha ainda?”
“Mora onde?”
“E seus pais, vivos?”

Checklist da vida em andamento.

Logo vieram umas lembranças – aquelas piadas internas que antes causavam ataques de riso e agora só rendiam sorrisos educados.

A festa seguia animada: bebida boa, DJ animado, comida de primeira… tudo propício ao tal reencontro inesquecível.

Menos… na mesa de Clô.

Ali, o silêncio começou a pesar como prataria herdada.

Ela olhou para as “meninas” e viu… duas estranhas. Nada da antiga conexão, nenhuma faísca do trio explosivo que um dia foram.

Sem rodeios, soltou: — Gente… que tal dar uma voltinha por aí?

Levantou-se, ajeitou o vestido, ergueu o queixo renovado pelo botox e, ao dar o primeiro passo, lembrou de uma frase que leu num cartão postal ou num biscoito da sorte, sei lá: “O rio nunca passa duas vezes no mesmo lugar.”

E, naquele momento, ela achou a metáfora perfeita.

Para as amigas, para a noite, para a vida.

Ana Helena Reis

Ana Helena Reis é paulistana, pesquisadora e empresária, com extensa produção de textos acadêmicos. Em 2019 começou a se dedicar à escrita literária e à ilustração de seus textos em prosa: contos, crônicas e resenhas, relacionados a fatos e situações do cotidiano. Publica em seu blog, Pincel de Crônicas, em coletâneas, e revistas eletrônicas. Em 2024 lançou seu primeiro livro solo, Conto ou não conto, pela editora Paraquedas/Claraboia, e, em Espanhol, Inquietudes Crónicas, pela editora Caravana/Caburé.

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